Um quarto de tudo o que uma criança brasileira come hoje vem de alimentos ultraprocessados. É o que mostra o Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (Enani), pesquisa encomendada pelo Ministério da Saúde e coordenada pela UFRJ, que avaliou o perfil alimentar de crianças de até seis anos em 123 municípios do país.
O levantamento aponta que 80% das crianças abaixo de cinco anos consomem ultraprocessados com regularidade, e que 25% de todas as calorias ingeridas por elas vêm exclusivamente desses produtos, um número que sobe para 30% na faixa de dois a cinco anos.
Na outra ponta, o espaço que sobra para frutas, raízes e hortaliças encolhe: segundo o coordenador do estudo, Gilberto Kac, professor de nutrição da UFRJ, metade das crianças nessa idade não consome frutas na rotina, e 80% delas não têm raízes ou tubérculos na dieta.
Esse já é um cenário preocupante durante o ano letivo. Mas, segundo nutricionistas e pediatras, é nas férias escolares que esse consumo cresce, justamente o período em que a rotina alimentar estruturada pela escola deixa de existir por algumas semanas.
A tese é simples de entender: férias quebram a rotina, e rotina quebrada tende a significar padrão alimentar prejudicado. Sem o horário fixo do lanche, sem o cardápio planejado da cantina e sem a supervisão constante de um ambiente pensado para a alimentação saudável, abre-se espaço para escolhas mais práticas — e nem sempre mais nutritivas.
É nesse ponto que a escola, mesmo fora do período letivo, pode (e deve) continuar exercendo seu papel de agente de mudança. Como já mostramos antes sobre como incentivar a alimentação saudável durante as férias, a instituição de ensino não precisa e nem deveria encerrar sua influência educativa no último dia de aula.
Neste artigo, vamos entender por que esse aumento acontece, quais são os impactos reais no comportamento e na saúde das crianças, e como escola e família podem trabalhar juntas para que as férias sejam de descanso, sem virar um retrocesso nos hábitos alimentares construídos ao longo do ano.
Por que o consumo aumenta nas férias?
O primeiro e mais óbvio motivo é a quebra da rotina alimentar estruturada que a escola proporciona. Durante o período letivo, a criança tem horários definidos para café da manhã, lanche e almoço, muitas vezes dentro de um cardápio planejado por nutricionistas. Nas férias, esses horários se tornam irregulares e a ausência de uma estrutura de refeições torna mais fácil substituir uma refeição completa por um snack rápido.
Some-se a isso o fato de que as crianças passam muito mais tempo em casa, com acesso facilitado à despensa e à geladeira. Sem a distância física da escola, o impulso de “beliscar” aumenta, e os ultraprocessados, por serem práticos, duráveis e prontos para consumo, acabam sendo a escolha mais conveniente.
O tempo livre também costuma vir acompanhado de mais tempo de tela, e aí entra um fator pouco discutido: a publicidade infantil de alimentos. Crianças expostas a mais horas de TV, vídeos e redes sociais durante as férias também estão expostas a mais anúncios de produtos ultraprocessados desenhados especificamente para chamar sua atenção.
Do lado dos responsáveis, existe um fator igualmente importante: o cansaço. Férias escolares não significam férias de trabalho para a maioria dos pais e cuidadores, que seguem em sua rotina profissional enquanto tentam dar conta de manter os filhos ocupados, alimentados e seguros. Nesse cenário, a praticidade dos alimentos processados, que não exigem preparo, têm validade longa e agradam ao paladar infantil, vira uma solução.
Por fim, há um componente emocional que merece atenção especial: o ultraprocessado como recompensa. Snacks, guloseimas e refrigerantes frequentemente se tornam parte do “clima de férias”, usados para comemorar passeios, premiar bom comportamento ou simplesmente compor momentos de lazer em família. Esse vínculo afetivo é poderoso e vai além da nutrição: é sobre memória, prazer e pertencimento, o que torna a mudança de hábito mais delicada do que parece à primeira vista.
Impactos no comportamento e na saúde

O aumento no consumo de ultraprocessados durante as férias não é apenas uma questão estética de “comer mal por um tempo”, ele tem efeitos concretos no comportamento infantil. O excesso de açúcar, sódio e aditivos presentes nesses produtos está associado a oscilações de humor, irritabilidade e dificuldade de concentração, fatores que pais costumam notar sem necessariamente associar à alimentação.
Esses efeitos se tornam ainda mais visíveis no momento de retorno à rotina escolar. Crianças que passaram semanas com horários de sono e alimentação desregulados costumam ter mais dificuldade para se readaptar à disciplina das aulas, apresentando cansaço, falta de disposição e queda na capacidade de concentração logo nas primeiras semanas do novo período letivo.
A longo prazo, os riscos se acumulam: o consumo recorrente de ultraprocessados está ligado a sobrepeso infantil, maior risco de resistência à insulina e, talvez o ponto mais relevante para pais e educadores, à cristalização de hábitos alimentares pouco saudáveis. Quanto mais cedo e mais frequentemente a criança é exposta a esse padrão alimentar, maior a chance de que ele se torne preferência de paladar na vida adulta.
Para entender melhor os riscos específicos desses produtos, vale a leitura de alimentos ultraprocessados: o perigo silencioso e os malefícios dos alimentos ultraprocessados.
Como a escola pode orientar as famílias
Diante desse cenário, a escola tem um papel estratégico que vai além de oferecer uma boa alimentação dentro de seus muros, ela pode (e deve) se posicionar como parceira das famílias durante o período de férias.
O primeiro passo é a comunicação preventiva: enviar, antes do início das férias, informativos e guias práticos sobre alimentação saudável no período. Esse material funciona melhor quando é simples e aplicável, com sugestões de cardápio acessível, fáceis de seguir mesmo sem grande disponibilidade de tempo.
Atividades de encerramento de semestre também são uma boa oportunidade. Oficinas de educação alimentar, feitas em parceria com nutricionistas, ajudam a reforçar, de forma lúdica, os hábitos trabalhados ao longo do ano letivo, deixando as crianças (e os pais que participam) com referências práticas para levar para casa.
A presença digital da escola também pode ser uma aliada importante durante as férias. Conteúdos nas redes sociais, receitas rápidas, desafios alimentares em família, listas de compras saudáveis, mantêm o vínculo com a comunidade escolar mesmo fora do período letivo, sem soar invasivo ou impositivo. É uma forma de a escola continuar presente no dia a dia das famílias sem parecer que está “cobrando” comportamento.
Por fim, a volta às aulas é um momento valioso de retomada. Uma conversa simples com os alunos sobre como foi a alimentação nas férias, sem julgamento, com curiosidade genuína, reforça que o tema continua relevante e ajuda a reconectar a turma com a rotina alimentar da escola.
Dicas práticas para as famílias

Para os responsáveis que querem manter o equilíbrio alimentar durante as férias sem transformar a casa em um campo de batalha, algumas estratégias simples fazem diferença.
Manter horários fixos de refeição, mesmo sem o compromisso da escola, ajuda o corpo (e o comportamento) da criança a permanecer regulado, ter um café da manhã, almoço e jantar em horários relativamente previsíveis evita que o “beliscar o dia todo” vire o padrão.
Envolver as crianças no preparo da comida transforma a alimentação em atividade, e não em obrigação. Deixar que ajudem a montar um sanduíche, lavar frutas ou escolher entre duas opções saudáveis dá a elas senso de autonomia, o que tende a aumentar a aceitação do alimento.
Pequenas substituições também rendem grandes resultados: trocar salgadinhos por frutas cortadas de forma atrativa, ou refrigerante por água saborizada com frutas naturais, mantém o prazer sensorial sem abrir mão da qualidade nutricional.
E talvez o ponto mais importante: reduzir não é o mesmo que proibir. Cortar completamente os ultraprocessados durante as férias costuma gerar o efeito oposto do desejado, um tipo de “rebeldia alimentar” em que a criança passa a desejar ainda mais o que foi proibido. O caminho mais sustentável é o equilíbrio: permitir, com moderação, sem fazer disso o centro da rotina alimentar do período.
A parceria entre escola e família faz a diferença
Férias escolares não precisam ser sinônimo de retrocesso nos hábitos alimentares construídos ao longo do ano. Com comunicação clara, orientação e o reforço do vínculo entre escola e família, é possível manter o equilíbrio mesmo fora da rotina letiva , sem tirar das crianças o prazer e a liberdade que esse período deve proporcionar.
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